30.12.25

Novas Diretrizes para o Autismo no Brasil: O que Pais e Profissionais Precisam Saber sobre Diagnóstico e Intervenção Precoce

 


 

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um tema de crescente relevância social e científica no Brasil. Em um esforço para unificar e atualizar a prática clínica no país, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou em outubro de 2025 uma importante atualização em suas "Recomendações e Orientações para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem Terapêutica do Transtorno do Espectro Autista"  1 . Este documento representa um marco, pois traduz o que há de mais recente em evidências científicas para a realidade brasileira, com foco especial na intervenção precoce e na precisão diagnóstica.

 

 

O Coração do Diagnóstico: Precisão e Estabilidade

 

O diagnóstico do TEA permanece sendo essencialmente clínico, baseado na observação do comportamento da criança e na entrevista detalhada com os pais e cuidadores, seguindo os critérios estabelecidos pelo Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-5)  1 . É fundamental compreender que não existe um exame de sangue, de imagem ou um marcador biológico único que confirme o diagnóstico. A avaliação deve ser conduzida por um profissional experiente, familiarizado com o desenvolvimento neuropsicomotor infantil e com o diagnóstico diferencial de outros transtornos.

 

Um dos pontos mais encorajadores das novas diretrizes é a confirmação da estabilidade do diagnóstico em idades muito precoces. Estudos internacionais de excelência, citados pela SBNI, indicam que o diagnóstico de TEA pode ser considerado estável a partir dos 14 meses de idade, atingindo uma estabilidade de 84% aos 16 meses, quando reavaliado aos 3 anos  1 .

 

"A pesquisa apontou a partir de 14 meses de idade a taxa de estabilidade do diagnóstico passa a ser consistente e, aos 16 meses, atinge 84%, após reavaliação aos 36 meses de vida."  1

 

Essa descoberta é crucial, pois desmistifica a ideia de que é preciso esperar a criança crescer para ter um diagnóstico seguro. Quanto mais cedo o diagnóstico é estabelecido, mais rápido a criança pode ser encaminhada para intervenções que aproveitam a plasticidade neuronal inerente aos primeiros anos de vida.

 

 

Sinais de Alerta Precoce e a Síndrome "Autism-Like"

 

As diretrizes reforçam a importância de identificar os sinais de alerta desde os primeiros meses de vida. Pais e pediatras devem estar atentos a manifestações como:


 

 


 

 

 

O Desafio das Telas

 

Um alerta importante trazido pelo documento é a distinção entre o TEA e a chamada síndrome "autism-like" (semelhante ao autismo). A exposição precoce e intensa de crianças a telas (celulares, tablets, televisão) pode simular sinais de TEA, como atraso no desenvolvimento da linguagem e dificuldades de regulação emocional  1 . Embora a SBNI afirme que não há evidências de uma relação causal direta entre telas e TEA, a falta de estímulos sociais e interativos adequados (como brincar livremente e interagir com os pais) pode levar a atrasos que mimetizam o transtorno. É vital que pais e educadores compreendam essa diferença para buscar a intervenção correta.

 

 

A Urgência da Intervenção: Não Espere pelo Diagnóstico Final

Talvez a mensagem mais enfática das novas diretrizes seja a necessidade de intervenção imediata. A SBNI orienta que, na observação de atrasos de desenvolvimento, o encaminhamento para a abordagem terapêutica é de fundamental importância, mesmo que o diagnóstico definitivo ainda não tenha sido estabelecido  1 .

 

Isso se deve ao conceito de plasticidade neuronal, a incrível capacidade do cérebro infantil de se reorganizar e criar novas conexões. Ao iniciar as terapias (como a Análise do Comportamento Aplicada - ABA, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia) o mais cedo possível, aproveita-se essa janela de oportunidade para maximizar o desenvolvimento da criança.

 

Para auxiliar no rastreamento, a SBNI reforça a recomendação do uso da escala M-CHAT-R/F (Modified Checklist for Autism in Toddlers ‒ Revised with Follow-up) no Brasil, em consonância com a Lei Federal nº 13.438/2017, que tornou obrigatória a aplicação de um


protocolo de avaliação de riscos para o desenvolvimento psíquico nos primeiros 18 meses de vida  1 .

 

 

Conclusão: Implicações Práticas

 

As novas diretrizes da SBNI trazem uma mensagem clara de esperança e responsabilidade:

 

1.  Para os Pais: Confiem em seus instintos. Se notarem atrasos ou sinais de alerta, procurem um especialista. O diagnóstico seguro pode vir mais cedo do que se pensava, e a intervenção não deve esperar. Limitar a exposição a telas é uma medida preventiva crucial para o desenvolvimento social e de linguagem.

 

2.  Para os Profissionais de Saúde: A experiência clínica e o conhecimento aprofundado são insubstituíveis. O uso de ferramentas de rastreio como o M-CHAT-R/F é um dever, e o encaminhamento para terapias deve ser imediato em casos de atraso, mesmo que o diagnóstico final ainda esteja em refinamento.

 

O avanço da ciência e a unificação das recomendações no Brasil garantem que o cuidado com o TEA seja cada vez mais baseado em evidências, oferecendo às crianças e suas famílias o suporte necessário para um desenvolvimento pleno.

 

 

Referências

 

[1] Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI). Recomendações e Orientações para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem Terapêutica do Transtorno do Espectro Autista (atualização). Outubro 2025. [PDF baixado de https://sbni.org.br/recomendacoes-e-orientacoes-para-o-diagnostico-investigacao-e-abordagem-terapeutica-do-transtorno-do-espectro-autista/ (URL original do artigo )]

Nenhum comentário:

Postar um comentário