O
Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um tema de crescente relevância social e
científica no Brasil. Em um esforço para unificar e atualizar a prática clínica
no país, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou em
outubro de 2025 uma importante atualização em suas "Recomendações e
Orientações para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem Terapêutica do Transtorno
do Espectro Autista" 1 . Este documento representa um marco, pois
traduz o que há de mais recente em evidências científicas para a realidade
brasileira, com foco especial na intervenção precoce e na precisão diagnóstica.
O Coração do Diagnóstico: Precisão e Estabilidade
O
diagnóstico do TEA permanece sendo essencialmente clínico, baseado na
observação do comportamento da criança e na entrevista detalhada com os pais e
cuidadores, seguindo os critérios estabelecidos pelo Manual de Diagnóstico e
Estatística de Transtornos Mentais (DSM-5)
1
. É fundamental
compreender que não existe um exame de sangue, de imagem ou um marcador
biológico único que confirme o diagnóstico. A avaliação deve ser conduzida por
um profissional experiente, familiarizado com o desenvolvimento neuropsicomotor
infantil e com o diagnóstico diferencial de outros transtornos.
Um
dos pontos mais encorajadores das novas diretrizes é a confirmação da
estabilidade do diagnóstico em idades muito precoces. Estudos internacionais de
excelência, citados pela SBNI, indicam que o diagnóstico de TEA pode ser
considerado estável a partir dos 14 meses de idade, atingindo uma estabilidade
de 84% aos 16 meses, quando reavaliado aos 3 anos 1 .
"A
pesquisa apontou a partir de 14 meses de idade a taxa de estabilidade do
diagnóstico passa a ser consistente e, aos 16 meses, atinge 84%, após
reavaliação aos 36 meses de vida." 1
Essa
descoberta é crucial, pois desmistifica a ideia de que é preciso esperar a
criança crescer para ter um diagnóstico seguro. Quanto mais cedo o diagnóstico
é estabelecido, mais rápido a criança pode ser encaminhada para intervenções
que aproveitam a plasticidade neuronal inerente aos primeiros anos de vida.
Sinais de Alerta Precoce e a Síndrome "Autism-Like"
As
diretrizes reforçam a importância de identificar os sinais de alerta desde os
primeiros meses de vida. Pais e pediatras devem estar atentos a manifestações
como:
O Desafio das Telas
Um
alerta importante trazido pelo documento é a distinção entre o TEA e a chamada
síndrome "autism-like" (semelhante ao autismo). A exposição precoce e
intensa de crianças a telas (celulares, tablets, televisão) pode simular sinais
de TEA, como atraso no desenvolvimento da linguagem e dificuldades de regulação
emocional 1 . Embora a SBNI afirme que não há evidências de
uma relação causal direta entre telas e TEA, a falta de estímulos sociais e
interativos adequados (como brincar livremente e interagir com os pais) pode
levar a atrasos que mimetizam o transtorno. É vital que pais e educadores
compreendam essa diferença para buscar a intervenção correta.
A Urgência da Intervenção: Não Espere pelo
Diagnóstico Final
Talvez a
mensagem mais enfática das novas diretrizes seja a necessidade de intervenção
imediata. A SBNI orienta que, na observação de atrasos de desenvolvimento, o
encaminhamento para a abordagem terapêutica é de fundamental importância, mesmo
que o diagnóstico definitivo ainda não tenha sido estabelecido 1 .
Isso
se deve ao conceito de plasticidade neuronal, a incrível capacidade do cérebro
infantil de se reorganizar e criar novas conexões. Ao iniciar as terapias (como
a Análise do Comportamento Aplicada - ABA, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia)
o mais cedo possível, aproveita-se essa janela de oportunidade para maximizar o
desenvolvimento da criança.
Para
auxiliar no rastreamento, a SBNI reforça a recomendação do uso da escala
M-CHAT-R/F (Modified Checklist for Autism in Toddlers ‒ Revised with Follow-up)
no Brasil, em consonância com a Lei Federal nº 13.438/2017, que tornou
obrigatória a aplicação de um
protocolo de
avaliação de riscos para o desenvolvimento psíquico nos primeiros 18 meses de
vida 1 .
Conclusão: Implicações Práticas
As novas
diretrizes da SBNI trazem uma mensagem clara de esperança e responsabilidade:
1. Para
os Pais: Confiem em seus instintos. Se notarem atrasos ou sinais de alerta,
procurem um especialista. O diagnóstico seguro pode vir mais cedo do que se
pensava, e a intervenção não deve esperar. Limitar a exposição a telas é uma
medida preventiva crucial para o desenvolvimento social e de linguagem.
2. Para
os Profissionais de Saúde: A experiência clínica e o conhecimento aprofundado
são insubstituíveis. O uso de ferramentas de rastreio como o M-CHAT-R/F é um
dever, e o encaminhamento para terapias deve ser imediato em casos de atraso,
mesmo que o diagnóstico final ainda esteja em refinamento.
O
avanço da ciência e a unificação das recomendações no Brasil garantem que o
cuidado com o TEA seja cada vez mais baseado em evidências, oferecendo às
crianças e suas famílias o suporte necessário para um desenvolvimento pleno.
Referências
[1]
Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI). Recomendações e Orientações
para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem Terapêutica do Transtorno do
Espectro Autista (atualização). Outubro 2025. [PDF baixado de
https://sbni.org.br/recomendacoes-e-orientacoes-para-o-diagnostico-investigacao-e-abordagem-terapeutica-do-transtorno-do-espectro-autista/
(URL original do artigo )]
Nenhum comentário:
Postar um comentário