Introdução: Navegando pela Ciência com Clareza
e Empatia
O Transtorno do
Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade
(TDAH) são condições do neurodesenvolvimento que impactam milhões de famílias
no Brasil e no mundo. A constante evolução da pesquisa científica e a publicação
de novas diretrizes clínicas tornam fundamental a tradução desse conhecimento
complexo para uma linguagem acessível, empática e, acima de tudo, cientificamente
embasada.
Este
artigo se propõe a sintetizar as informações mais recentes e relevantes,
baseando-se em documentos oficiais brasileiros de alto impacto, como a
atualização das Recomendações e Orientações para o Diagnóstico, Investigação e
Abordagem Terapêutica do TEA da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil
(SBNI) 1 e
o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do TDAH do Ministério da
Saúde (MS) 2 .
1. Transtorno do Espectro Autista (TEA): O
Caminho da Intervenção Precoce
O
TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades
persistentes na comunicação e interação social e por padrões restritos e
repetitivos de comportamento, interesses ou atividades 1 . A última
edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)
simplificou o diagnóstico, estabelecendo três níveis de gravidade de acordo com
a necessidade de suporte do indivíduo (Nível 1, 2 ou 3).
1.1. O Desafio do Diagnóstico Precoce
O
diagnóstico do TEA é essencialmente clínico, dependendo da observação e da
experiência do profissional. A diretriz da SBNI de 2025 reforça a importância da
identificação precoce, indicando que a estabilidade diagnóstica se torna
consistente a partir dos 14 meses de idade
1
. A intervenção
imediata, mesmo diante de um atraso de desenvolvimento sem diagnóstico definitivo,
é crucial para aproveitar a plasticidade neuronal da primeira infância.
1.2. Abordagem Terapêutica: Foco na Evidência
A
ciência é clara: a abordagem terapêutica mais eficaz para o TEA é a intervenção
precoce e transdisciplinar 1 .
"Atualmente
as abordagens com maior evidência de eficácia e benefício são baseadas na
ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA - Applied Behavior Analysis),
associada a terapias eficazes, como fonoterapia, terapia ocupacional com
integração sensorial e outras." 1
Modelos
de intervenção mais naturalísticos, como o Denver, Jasper ou Pivotal Response
Training, são reconhecidos, mas a SBNI esclarece que eles se baseiam e utilizam
as técnicas comportamentais da ciência ABA. A chave é a abordagem
transdisciplinar, onde profissionais de diferentes áreas trabalham com um plano
terapêutico comum e individualizado 1 .
1.3. A Controvérsia da Carga Horária
Um
ponto de destaque na diretriz da SBNI é a crítica à prática de exigir que o
médico determine a carga horária exata de cada terapia. A diretriz argumenta
que essa conduta é contrária aos princípios éticos e à racionalidade, pois
interfere na autonomia e no trabalho dos terapeutas.
O
ideal é que a intensidade da abordagem seja definida pela equipe terapêutica
após uma avaliação minuciosa e individualizada, sendo o papel do médico
garantir que a abordagem esteja conforme as evidências científicas e que os
procedimentos resultem em benefício clínico para o paciente 1 .
1.4. Tratamento Farmacológico e Mitos
Não
existe tratamento medicamentoso para os sintomas centrais do TEA. Os fármacos
são utilizados para tratar comorbidades como agressividade, irritabilidade,
distúrbios do sono e TDAH 1 .
Uma
novidade no cenário brasileiro é a atomoxetina, que se tornou disponível a
partir de 2024 como uma alternativa aos psicoestimulantes para o tratamento do
TDAH em pacientes com TEA, sendo útil para aqueles que não toleram os efeitos
colaterais dos estimulantes tradicionais
1
.
A
diretriz da SBNI também faz um alerta importante sobre intervenções sem suporte
científico, listando diversas práticas que, apesar de populares, não possuem
evidências confiáveis de eficácia, como dietas restritivas (sem diagnóstico de
intolerância),
suplementações
vitamínicas (sem deficiência diagnosticada) e o uso de Canabidiol, que ainda é
considerado experimental e sem garantia de eficácia 1 .
2. Transtorno do Déficit de Atenção com
Hiperatividade (TDAH): Diretrizes Nacionais
O TDAH é a
condição do neurodesenvolvimento mais prevalente no Brasil, com uma estimativa
de 7,6% em crianças e adolescentes e 5,2% em adultos 2 .
Caracteriza-se pela tríade de desatenção, hiperatividade e impulsividade em um
nível exacerbado e disfuncional para a idade
2
.
2.1. A Realidade das Comorbidades
O
PCDT do Ministério da Saúde de 2022 enfatiza que o TDAH raramente se manifesta
isoladamente. A prevalência de comorbidades é altíssima: 50% a 90% das crianças
com TDAH têm pelo menos uma condição comórbida
2
.
Condição Comórbida Comum
Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD)
Transtornos de Ansiedade e Depressão
Transtornos de Aprendizado
Transtorno do Espectro Autista (TEA)
Impacto Clínico
Problemas de conduta e oposição à autoridade.
Podem mascarar sintomas de desatenção ou serem
agravados pelo TDAH.
Dificuldades específicas que exigem adaptações
escolares.
Coexistência que exige um plano de tratamento
altamente individualizado.
2.2. Tratamento Não Medicamentoso: A Base da Intervenção
O
PCDT do MS preconiza a intervenção multimodal, onde as abordagens não
medicamentosas são a base do tratamento 2 .
A
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a forma de tratamento psicológico mais
bem estabelecida e recomendada. A TCC atua no gerenciamento de contingências e
na análise funcional do comportamento, ajudando o paciente a desenvolver
habilidades de autocontrole, planejamento e organização 2 .
Para
crianças, o treinamento parental é fundamental. No ambiente escolar,
intervenções comportamentais e acadêmicas, como o reforço simbólico (sistema de
fichas) e a atenção
2.3. O Posicionamento do SUS sobre Medicamentos
Um
ponto crucial do PCDT do TDAH de 2022 é o posicionamento da Comissão Nacional
de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC) sobre o tratamento
farmacológico 2 .
A CONITEC não
preconizou a incorporação do metilfenidato e da lisdexanfetamina para o
tratamento de TDAH no Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças, adolescentes
e adultos. 2
A
justificativa para essa decisão foi a fragilidade das evidências científicas
apresentadas (baixa/muito baixa qualidade) e o elevado impacto orçamentário.
Isso implica que, no contexto do SUS, o foco principal do tratamento deve ser a
abordagem não medicamentosa, sendo a medicação uma opção restrita e não
prioritária no protocolo nacional 2 .
Conclusão: Empatia, Ciência e Ação
A
atualização das diretrizes sobre TEA e TDAH no Brasil reforça uma mensagem
central: o diagnóstico precoce e a intervenção transdisciplinar baseada em
evidências são os pilares para um desenvolvimento saudável e funcional.
Para
pais e cuidadores, a psicoeducação e o treinamento parental são ferramentas
poderosas que, quando aliadas à parceria com a escola e a equipe terapêutica,
potencializam os resultados.
Para
os profissionais, a ciência exige uma abordagem individualizada e ética,
especialmente na definição da intensidade terapêutica no TEA e na priorização
das intervenções não medicamentosas no TDAH, conforme as diretrizes nacionais.
É um chamado à responsabilidade para distinguir as práticas comprovadas dos
modismos, garantindo que o cuidado oferecido seja sempre pautado na clareza,
empatia e no mais sólido embasamento científico.
Referências
[1] SBNI.
Recomendações e Orientações para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem
Terapêutica do Transtorno do Espectro Autista (atualização). Sociedade
Brasileira de Neurologia Infantil. 2025.
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