28.12.25

Neurodesenvolvimento em Foco: Atualizações Essenciais sobre TEA e TDAH para o Público Brasileiro

 


 

 

Introdução: Navegando pela Ciência com Clareza e Empatia

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) são condições do neurodesenvolvimento que impactam milhões de famílias no Brasil e no mundo. A constante evolução da pesquisa científica e a publicação de novas diretrizes clínicas tornam fundamental a tradução desse conhecimento complexo para uma linguagem acessível, empática e, acima de tudo, cientificamente embasada.

 

Este artigo se propõe a sintetizar as informações mais recentes e relevantes, baseando-se em documentos oficiais brasileiros de alto impacto, como a atualização das Recomendações e Orientações para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem Terapêutica do TEA da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI)  1   e o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do TDAH do Ministério da Saúde (MS)  2 .

 

 

 

1. Transtorno do Espectro Autista (TEA): O Caminho da Intervenção Precoce

 

O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades persistentes na comunicação e interação social e por padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades  1 . A última edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) simplificou o diagnóstico, estabelecendo três níveis de gravidade de acordo com a necessidade de suporte do indivíduo (Nível 1, 2 ou 3).

 

1.1. O Desafio do Diagnóstico Precoce

 

O diagnóstico do TEA é essencialmente clínico, dependendo da observação e da experiência do profissional. A diretriz da SBNI de 2025 reforça a importância da identificação precoce, indicando que a estabilidade diagnóstica se torna consistente a partir dos 14 meses de idade  1 . A intervenção imediata, mesmo diante de um atraso de desenvolvimento sem diagnóstico definitivo, é crucial para aproveitar a plasticidade neuronal da primeira infância.


É importante notar que o TDAH é uma das condições que pode mimetizar ou coexistir com o TEA, o que sublinha a necessidade de um diagnóstico diferencial cuidadoso  1 .

 

1.2. Abordagem Terapêutica: Foco na Evidência

 

A ciência é clara: a abordagem terapêutica mais eficaz para o TEA é a intervenção precoce e transdisciplinar  1 .

 

"Atualmente as abordagens com maior evidência de eficácia e benefício são baseadas na ciência da Análise do Comportamento Aplicada (ABA - Applied Behavior Analysis), associada a terapias eficazes, como fonoterapia, terapia ocupacional com integração sensorial e outras."  1

 

Modelos de intervenção mais naturalísticos, como o Denver, Jasper ou Pivotal Response Training, são reconhecidos, mas a SBNI esclarece que eles se baseiam e utilizam as técnicas comportamentais da ciência ABA. A chave é a abordagem transdisciplinar, onde profissionais de diferentes áreas trabalham com um plano terapêutico comum e individualizado  1 .

 

1.3. A Controvérsia da Carga Horária

 

Um ponto de destaque na diretriz da SBNI é a crítica à prática de exigir que o médico determine a carga horária exata de cada terapia. A diretriz argumenta que essa conduta é contrária aos princípios éticos e à racionalidade, pois interfere na autonomia e no trabalho dos terapeutas.

 

O ideal é que a intensidade da abordagem seja definida pela equipe terapêutica após uma avaliação minuciosa e individualizada, sendo o papel do médico garantir que a abordagem esteja conforme as evidências científicas e que os procedimentos resultem em benefício clínico para o paciente  1 .

 

1.4. Tratamento Farmacológico e Mitos

 

Não existe tratamento medicamentoso para os sintomas centrais do TEA. Os fármacos são utilizados para tratar comorbidades como agressividade, irritabilidade, distúrbios do sono e TDAH  1 .

 

Uma novidade no cenário brasileiro é a atomoxetina, que se tornou disponível a partir de 2024 como uma alternativa aos psicoestimulantes para o tratamento do TDAH em pacientes com TEA, sendo útil para aqueles que não toleram os efeitos colaterais dos estimulantes tradicionais  1 .

 

A diretriz da SBNI também faz um alerta importante sobre intervenções sem suporte científico, listando diversas práticas que, apesar de populares, não possuem evidências confiáveis de eficácia, como dietas restritivas (sem diagnóstico de intolerância),


suplementações vitamínicas (sem deficiência diagnosticada) e o uso de Canabidiol, que ainda é considerado experimental e sem garantia de eficácia  1 .

 

 

 

2. Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH): Diretrizes Nacionais

O TDAH é a condição do neurodesenvolvimento mais prevalente no Brasil, com uma estimativa de 7,6% em crianças e adolescentes e 5,2% em adultos  2 . Caracteriza-se pela tríade de desatenção, hiperatividade e impulsividade em um nível exacerbado e disfuncional para a idade  2 .

 

2.1. A Realidade das Comorbidades

 

O PCDT do Ministério da Saúde de 2022 enfatiza que o TDAH raramente se manifesta isoladamente. A prevalência de comorbidades é altíssima: 50% a 90% das crianças com TDAH têm pelo menos uma condição comórbida  2 .

 

 


Condição Comórbida Comum

 

Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD)

 

 

Transtornos de Ansiedade e Depressão

 

 

Transtornos de Aprendizado

 

 

Transtorno do Espectro Autista (TEA)


Impacto Clínico

 

Problemas de conduta e oposição à autoridade.

 

Podem mascarar sintomas de desatenção ou serem agravados pelo TDAH.

 

Dificuldades específicas que exigem adaptações escolares.

 

Coexistência que exige um plano de tratamento

altamente individualizado.


 

 

 

 

2.2. Tratamento Não Medicamentoso: A Base da Intervenção

 

O PCDT do MS preconiza a intervenção multimodal, onde as abordagens não medicamentosas são a base do tratamento  2 .

 

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é a forma de tratamento psicológico mais bem estabelecida e recomendada. A TCC atua no gerenciamento de contingências e na análise funcional do comportamento, ajudando o paciente a desenvolver habilidades de autocontrole, planejamento e organização  2 .

 

Para crianças, o treinamento parental é fundamental. No ambiente escolar, intervenções comportamentais e acadêmicas, como o reforço simbólico (sistema de fichas) e a atenção


diferencial do professor, são estratégias eficazes para auxiliar na organização e no comportamento em sala de aula  2 .

 

2.3. O Posicionamento do SUS sobre Medicamentos

 

Um ponto crucial do PCDT do TDAH de 2022 é o posicionamento da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC) sobre o tratamento farmacológico  2 .

 

A CONITEC não preconizou a incorporação do metilfenidato e da lisdexanfetamina para o tratamento de TDAH no Sistema Único de Saúde (SUS) para crianças, adolescentes e adultos.  2

 

A justificativa para essa decisão foi a fragilidade das evidências científicas apresentadas (baixa/muito baixa qualidade) e o elevado impacto orçamentário. Isso implica que, no contexto do SUS, o foco principal do tratamento deve ser a abordagem não medicamentosa, sendo a medicação uma opção restrita e não prioritária no protocolo nacional  2 .

 

 

 

Conclusão: Empatia, Ciência e Ação

 

A atualização das diretrizes sobre TEA e TDAH no Brasil reforça uma mensagem central: o diagnóstico precoce e a intervenção transdisciplinar baseada em evidências são os pilares para um desenvolvimento saudável e funcional.

 

Para pais e cuidadores, a psicoeducação e o treinamento parental são ferramentas poderosas que, quando aliadas à parceria com a escola e a equipe terapêutica, potencializam os resultados.

 

Para os profissionais, a ciência exige uma abordagem individualizada e ética, especialmente na definição da intensidade terapêutica no TEA e na priorização das intervenções não medicamentosas no TDAH, conforme as diretrizes nacionais. É um chamado à responsabilidade para distinguir as práticas comprovadas dos modismos, garantindo que o cuidado oferecido seja sempre pautado na clareza, empatia e no mais sólido embasamento científico.

 

 

 

Referências

[1] SBNI. Recomendações e Orientações para o Diagnóstico, Investigação e Abordagem Terapêutica do Transtorno do Espectro Autista (atualização). Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil. 2025.

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