31.12.25

Nova Diretriz Nacional de TEA: O que Pais e Profissionais Precisam Saber sobre Diagnóstico e Tratamento Baseado em Evidências


 

 

 

Introdução: Um Marco para o Cuidado no Brasil

 

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) exige um cuidado multidisciplinar e, acima de tudo, embasado em ciência. Recentemente, a Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) publicou um novo e robusto documento de diretrizes, com 33 páginas, que visa padronizar e qualificar a conduta clínica no diagnóstico e tratamento do TEA em crianças e adolescentes no Brasil  1 . Este material é crucial para pais, educadores e profissionais de saúde, pois reforça a importância do diagnóstico precoce, do cuidado individualizado e, principalmente, alerta sobre práticas sem comprovação científica.

 

 

O Diagnóstico: Essencialmente Clínico e Criterioso

 

A diretriz da SBNI reitera que o diagnóstico do TEA é fundamentalmente clínico, não dependendo de exames laboratoriais ou de imagem para ser estabelecido  1 . Ele se baseia na observação detalhada do comportamento da criança, em entrevistas aprofundadas com os responsáveis e na aplicação dos critérios estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).

 

É fundamental que o profissional esteja atento a fatores que podem simular os sintomas do TEA, como a vulnerabilidade social ou o uso excessivo de telas, que podem levar a atrasos no desenvolvimento e na comunicação.

 

Ferramentas de Apoio e Investigação Complementar

 

Embora o diagnóstico seja clínico, o uso de escalas de avaliação e rastreio (como M-Chat, CARS-2, ADI-R e ADOS-2) é recomendado como apoio à avaliação  1 .

 

A investigação complementar, com exames, só é indicada em casos específicos para descartar outras condições (diagnósticos diferenciais) ou investigar comorbidades. A tabela a seguir resume as indicações de exames:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tratamento: Foco em Evidências e Individualização

 

O tratamento do TEA deve ser personalizado e interdisciplinar, envolvendo profissionais de diversas áreas (terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicólogos, etc.).

 

A diretriz destaca a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e os modelos naturalísticos como abordagens terapêuticas com forte base de evidências  1 . O documento lista 28 práticas baseadas em evidências, incluindo a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e o Treino de Habilidades Sociais.

 

A carga horária terapêutica deve ser definida pela equipe multidisciplinar, respeitando as necessidades e a tolerância de cada indivíduo.

 

Medicamentos e Comorbidades

 

É importante ressaltar que não existem medicamentos específicos para os sintomas centrais do TEA  1 . A terapia medicamentosa é utilizada para tratar as comorbidades, ou seja, condições que frequentemente acompanham o autismo, como:

TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) Agressividade

Distúrbios do Sono (a melatonina é apontada como a opção com maior evidência para melhorar a qualidade do sono)

 

 

Alerta: Práticas Sem Comprovação Científica


Um dos pontos mais importantes da nova diretriz é o alerta explícito contra intervenções que não possuem evidências científicas confiáveis e que podem desviar recursos e tempo preciosos das famílias. O documento desaconselha:

Dietas restritivas (como as sem glúten ou caseína), a menos que haja um diagnóstico de alergia ou intolerância alimentar.

Suplementações (como ômega-3 e vitaminas) sem indicação clínica específica. Intervenções biológicas (células-tronco, ozonioterapia, quelantes).

Psicanálise e a técnica Son-rise.

O uso de Canabidiol (CBD), que ainda é considerado experimental e carece de estudos robustos para recomendação rotineira.

 

 

Conclusão e Implicações Práticas

 

A nova diretriz da SBNI é um farol de clareza e embasamento científico para a comunidade do TEA no Brasil.

 

Para pais e cuidadores, o documento reforça a necessidade de buscar profissionais qualificados e de questionar intervenções que prometem "curas" ou resultados milagrosos sem o devido suporte científico. O foco deve ser em terapias comportamentais e educacionais intensivas e individualizadas.

 

Para profissionais da saúde, a diretriz serve como um guia prático para aprimorar o diagnóstico clínico, realizar a investigação complementar de forma criteriosa e oferecer intervenções que realmente fazem a diferença na qualidade de vida da pessoa com TEA.

 

 

Referências

 

[1] G1. Nova diretriz nacional orienta diagnóstico e tratamento do autismo com base em evidências científicas. Disponível em:

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