O Transtorno do Espectro Autista (TEA)
e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são frequentemente observados em
conjunto. Estima-se que entre 30% a 50% das crianças
com TEA também
apresentem sintomas de TDAH. Essa alta taxa de
comorbidade e a sobreposição de
características comportamentais (como dificuldades de atenção e interação social) sempre levantaram a
questão: esses transtornos compartilham as mesmas raízes biológicas? A ciência,
por meio da análise
genômica, tem
fornecido evidências robustas de que sim, existe um forte vínculo genético
entre o TEA e o TDAH [1].
A Herança Compartilhada
Ambos os transtornos são altamente hereditários e de origem poligênica, o que significa que
são influenciados pela interação de múltiplos genes.
Estudos anteriores, especialmente aqueles com
gêmeos, já apontavam para uma sobreposição genética. No entanto, uma pesquisa genômica recente, publicada na prestigiada revista Nature Neuroscience, aprofundou essa compreensão ao
analisar a carga de variantes genéticas raras [2].
O estudo, realizado com uma grande
coorte dinamarquesa de mais de 8.000 crianças com TEA e/ou TDAH, focou nas crPTVs (variantes raras que causam a interrupção da proteína em genes "restritos"). Os resultados foram cruciais:
A carga de crPTVs foi similar entre os indivíduos com TEA e aqueles com TDAH, sugerindo uma sobreposição
genética significativa entre
os dois transtornos.
Essa similaridade na carga
de variantes raras em genes semelhantes reforça a hipótese de uma origem neurobiológica comum ou sobreposta, explicando a frequência com que os dois transtornos coexistem.
Descoberta de Novos Genes de Risco
Ao combinar as amostras de TEA
e TDAH para aumentar o poder estatístico, os pesquisadores conseguiram identificar um novo gene de risco com
significância em
todo o exoma: o gene MAP1A (proteína 1A associada a microtúbulos).
|
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Função Principal |
Implicação para TEA/TDAH |
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MAP1A |
Crucial na organização dos microtúbulos neuronais e altamente expresso no cérebro. |
Sua alteração confere risco para transtornos
psiquiátricos na infância, reforçando o papel das estruturas
neuronais na etiologia dos transtornos. |
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ANKRD11 |
Associado à deficiência intelectual. |
Detectado na análise conjunta, reforçando a complexidade e a ligação com outros transtornos do neurodesenvolvimento. |
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SCN2A |
Previamente associado ao TEA. |
Sua presença na análise conjunta confirma a relevância de genes já conhecidos no espectro mais amplo
dos transtornos. |
A descoberta do MAP1A destaca que as alterações na
estrutura e função neuronal
— especificamente na organização dos
microtúbulos, que são como o "esqueleto" das células cerebrais — podem ser um ponto de convergência biológica para ambos os transtornos.
Implicações Práticas para o Diagnóstico e Intervenção
O reconhecimento dessa sobreposição
genética tem implicações profundas para a prática clínica:
1.
Diagnóstico
Mais Integrado: Profissionais de saúde devem estar atentos aos
sintomas de TDAH em crianças com TEA (e vice-versa), realizando uma avaliação
diagnóstica mais abrangente.
2.
Pesquisa de Intervenções: O foco em alvos biológicos comuns, como o gene MAP1A, pode abrir novas vias para o desenvolvimento de tratamentos que abordem a base
neurobiológica subjacente a ambos os transtornos.
3.
Apoio Familiar: O conhecimento de que existe uma predisposição genética compartilhada pode ajudar famílias a compreenderem a
coocorrência dos transtornos
em seus filhos, reduzindo o estigma e direcionando o foco para intervenções
multimodais.
Em suma, a análise genômica
confirma o que a clínica já observava: TEA e TDAH são mais do
que apenas vizinhos
no espectro do neurodesenvolvimento; eles compartilham uma parte significativa de sua fundação biológica. Essa compreensão é vital
para avançarmos em direção a diagnósticos mais precisos e intervenções mais eficazes e personalizadas.
Referências
[1]
Newslab.
Análise Genômica Revela Vínculos Genéticos entre Transtorno do Espectro Autista
e TDAH. Disponível em: https://newslab.com.br/analise-genomica-revela-vinculos- geneticos-entre-transtorno-do-espectro-autista-e-tdah/
[2]
Satterstrom, F. K. et al. Autism spectrum disorder (ASD) and attention- deficit/hyperactivity disorder
(ADHD) have a similar burden of rare protein-truncating
variants.
Nature Neuroscience, v. 22,
n. 12, p. 1961‒1965, 2019. (Referência citada na
fonte [1])

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