Resumo Introdutório
O Transtorno do Déficit de Atenção com
Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) são condições do neurodesenvolvimento que frequentemente coexistem.
Essa
sobreposição, conhecida como comorbidade, sempre intrigou
a ciência. Recentemente, um estudo publicado na prestigiada revista Nature Communications [1] trouxe uma pista
genética crucial: a identificação do gene KDM5B como um gene de risco de
alta confiabilidade para o TDAH. O mais fascinante é que o mesmo gene já era conhecido por sua associação com o TEA, sugerindo uma raiz biológica comum para ambas as condições.
Este artigo traduz e explica a importância dessa descoberta para a
compreensão, diagnóstico e futuro das intervenções em neurodesenvolvimento.
O Que a Ciência
Descobriu
A pesquisa, conduzida por uma equipe
internacional que incluiu
pesquisadores da Universidade de Yale e da FMUSP
(Faculdade de Medicina
da USP), utilizou
uma metodologia avançada chamada Sequenciamento de Exoma Completo
(WES) em trios (criança com TDAH
e seus pais
biológicos) [1]. O objetivo era
buscar por variantes de DNA de novo, que são mutações genéticas que
surgem pela primeira vez no indivíduo e não são herdadas dos pais.
O
estudo identificou o gene KDM5B como um forte candidato a ser um dos responsáveis pelo desenvolvimento do TDAH. Além
dele, outros três genes (YLPM1, CTNND2 e
GNB2L1) foram
classificados como "de
risco potencial".
KDM5B: O "Controlador" do Código
Genético
Para o público
leigo, o KDM5B pode ser entendido como um gene-chave que atua como um "controlador" da estabilidade do nosso código genético. Ele codifica uma enzima que desempenha um papel importante na estabilidade do genoma e no reparo do DNA [2].
A descoberta de que alterações raras e prejudiciais no KDM5B estão enriquecidas em pessoas com TDAH, da mesma forma que já se sabia para o TEA [3], é um achado poderoso.
|
|
Associação
com o Gene KDM5B |
Implicação |
|
Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) |
Identificado como gene
de risco de alta
confiabilidade em estudo
de 2024. |
Sugere uma base genética para a condição. |
|
Transtorno do Espectro Autista (TEA) |
Associação
já conhecida e documentada em pesquisas anteriores. |
Reforça
a sobreposição biológica entre TEA e TDAH. |
A Raiz Genética Comum:
Por Que TDAH e TEA
Coexistem?
A alta taxa de comorbidade entre TDAH e TEA é um fato bem estabelecido na clínica. Estima-se que entre 30% a 50% dos indivíduos com TEA também
apresentam TDAH, e uma parcela significativa de pessoas com TDAH manifesta características do TEA [4].
O achado do KDM5B oferece uma explicação biológica para
essa sobreposição. Se um
mesmo gene de
alto risco está envolvido na etiologia de ambas as condições, isso sugere que
elas não são entidades totalmente separadas, mas sim manifestações de um mesmo
espectro de disfunção no neurodesenvolvimento, com diferentes ramificações funcionais [2].
"É provável que TDAH, TEA e outras condições do neurodesenvolvimento tenham
etiologia em comum, ao menos em parte. Com novas pesquisas 'de bancada', por exemplo utilizando-se de modelos
animais ou células
pluripotentes, esperamos conseguir entender
o que está acontecendo a partir de alterações nesses genes..." — Dr. Luís Carlos Farhat, pesquisador brasileiro que assina o artigo [2].
Implicações
Práticas: Clareza, Empatia e Esperança
É fundamental traduzir essa informação
científica complexa
em implicações práticas para pais, educadores e profissionais da saúde, mantendo
um tom de clareza, empatia e responsabilidade.
Para Pais e Famílias
1.
Validação
da Comorbidade: A descoberta ajuda a
validar a experiência de muitas famílias
que lidam com a dupla jornada do TEA e do TDAH. Há uma explicação biológica para o fato de que as condições frequentemente aparecem juntas.
2.
Foco no Apoio Clínico: É importante ressaltar que, no momento, não há
aplicabilidade clínica imediata para
os achados genéticos. O diagnóstico de TEA e TDAH
continua sendo essencialmente clínico, baseado na observação comportamental e em critérios diagnósticos (DSM-5-TR e CID-11).
O sequenciamento genético pode ser útil em casos específicos, mas não substitui a avaliação neuropsicológica e
psiquiátrica [2].
Para Profissionais da Saúde e Educadores
1.
Visão Integrada: A pesquisa reforça a necessidade de uma abordagem integrada no tratamento. Ao invés de tratar o TEA e o TDAH como
problemas separados, o foco deve ser nos mecanismos subjacentes do
neurodesenvolvimento que podem estar afetados.
2.
Caminho para o Futuro:
O achado pavimenta o caminho para o desenvolvimento de terapias mais
direcionadas e personalizadas. Ao
entender o papel do KDM5B e de outros genes de risco, os cientistas podem,
no futuro, desenvolver intervenções que atuem diretamente nos mecanismos biológicos comuns às duas condições.
Conclusão
A identificação do gene
KDM5B como
um gene de risco para
o TDAH, e sua conhecida ligação com o TEA,
é um marco na neurociência. Ela não apenas
enriquece nossa compreensão da complexa
arquitetura genética dessas condições, mas também oferece uma
explicação científica para a alta taxa de comorbidade.
Embora a jornada da descoberta
genética até o tratamento prático seja longa, cada passo como
este traz esperança de que, no futuro,
teremos ferramentas diagnósticas mais precisas e intervenções terapêuticas mais eficazes para melhorar a qualidade de vida de pessoas neurodivergentes. A ciência
avança, traduzindo o labirinto genético em caminhos mais
claros de compreensão e apoio.
Referências
[1]
Olfson, E. et al.
(2024). Rare de novo damaging
DNA variants are enriched in attention-deficit/hyperactivity disorder and implicate risk
genes. Nature Communications. [URL: https://www.nature.com/articles/s41467-024-50247-7]
[2]
Folha
de S. Paulo. (2024, 31 de julho). Pesquisadores identificam genes associados
ao TDAH. Equilíbrio.
[URL: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2024/07/pesquisadores- identificam-genes-associados-ao-tdah.shtml]
[3]
Sabetfakhri, N. P. et al. (2025). de novo KDM5B Mutation in a Patient with Autism Spectrum Disorder and Intellectual
Disability. PMC.
[URL:
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12244219/]
[4]
Afya. (2024, 22 de maio). IACAPAP 2024: Atualidades na abordagem do TEA em pediatria. Portal Afya.
[URL: https://portal.afya.com.br/pediatria/iacapap-2024- atualidades-na-abordagem-do-tea-em-pediatria]

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