31.10.25

Descoberta Genética: Um Gene-Chave (KDM5B) Revela a Conexão Biológica entre TDAH e Autismo


Resumo Introdutório

O Transtorno do Décit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) são condições do neurodesenvolvimento que frequentemente coexistem.

Essa sobreposição, conhecida como comorbidade, sempre intrigou a ciência. Recentemente, um estudo publicado na prestigiada revista Nature Communications [1] trouxe uma pista genética crucial: a identicação do gene KDM5B como um gene de risco de alta conabilidade para o TDAH. O mais fascinante é que o mesmo gene era conhecido por sua associação com o TEA, sugerindo uma raiz biológica comum para ambas as condições. Este artigo traduz e explica a importância dessa descoberta para a compreensão, diagnóstico e futuro das intervenções em neurodesenvolvimento.

 

O Que a Ciência Descobriu

A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional que incluiu pesquisadores da Universidade de Yale e da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP), utilizou uma metodologia avançada chamada Sequenciamento de Exoma Completo (WES) em trios (criança com TDAH e seus pais biológicos) [1]. O objetivo era buscar por variantes de DNA de novo, que são mutações genéticas que surgem pela primeira vez no indivíduo e não são herdadas dos pais.

O estudo identicou o gene KDM5B como um forte candidato a ser um dos responsáveis pelo desenvolvimento do TDAH. Além dele, outros três genes (YLPM1, CTNND2 e GNB2L1) foram classicados como "de risco potencial".

 

KDM5B: O "Controlador" do Código Genético

Para o público leigo, o KDM5B pode ser entendido como um gene-chave que atua como um "controlador" da estabilidade do nosso código genético. Ele codica uma enzima que desempenha um papel importante na estabilidade do genoma e no reparo do DNA [2].

A descoberta de que alterações raras e prejudiciais no KDM5B estão enriquecidas em pessoas com TDAH, da mesma forma que se sabia para o TEA [3], é um achado poderoso.


Condição Neurodesenvolvimental

Associação com o Gene KDM5B

Implicação

Transtorno do cit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)

Identicado como gene de risco de alta conabilidade em estudo de 2024.

Sugere uma base genética para a condição.

 

Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Associação conhecida e documentada em pesquisas anteriores.

Reforça a sobreposição biológica entre TEA e TDAH.

 

 

A Raiz Genética Comum: Por Que TDAH e TEA Coexistem?

A alta taxa de comorbidade entre TDAH e TEA é um fato bem estabelecido na clínica. Estima-se que entre 30% a 50% dos indivíduos com TEA também apresentam TDAH, e uma parcela signicativa de pessoas com TDAH manifesta características do TEA [4].

O achado do KDM5B oferece uma explicação biológica para essa sobreposição. Se um mesmo gene de alto risco está envolvido na etiologia de ambas as condições, isso sugere que elas não são entidades totalmente separadas, mas sim manifestações de um mesmo espectro de disfunção no neurodesenvolvimento, com diferentes ramicações funcionais [2].

provável que TDAH, TEA e outras condições do neurodesenvolvimento tenham etiologia em comum, ao menos em parte. Com novas pesquisas 'de bancada', por exemplo utilizando-se de modelos animais ou células pluripotentes, esperamos conseguir entender o que está acontecendo a partir de alterações nesses genes..." Dr. Luís Carlos Farhat, pesquisador brasileiro que assina o artigo [2].

 

Implicações Práticas: Clareza, Empatia e Esperança

É fundamental traduzir essa informação cientíca complexa em implicações práticas para pais, educadores e prossionais da saúde, mantendo um tom de clareza, empatia e responsabilidade.

 

Para Pais e Famílias

1.      Validação da Comorbidade: A descoberta ajuda a validar a experiência de muitas famílias que lidam com a dupla jornada do TEA e do TDAH. Há uma explicação biológica para o fato de que as condições frequentemente aparecem juntas.


2.      Foco no Apoio Clínico: É importante ressaltar que, no momento, não há aplicabilidade clínica imediata para os achados genéticos. O diagnóstico de TEA e TDAH continua sendo essencialmente clínico, baseado na observação comportamental e em critérios diagnósticos (DSM-5-TR e CID-11). O sequenciamento genético pode ser útil em casos especícos, mas não substitui a avaliação neuropsicológica e psiquiátrica [2].

 

Para Prossionais da Saúde e Educadores

1.      Visão Integrada: A pesquisa reforça a necessidade de uma abordagem integrada no tratamento. Ao invés de tratar o TEA e o TDAH como problemas separados, o foco deve ser nos mecanismos subjacentes do neurodesenvolvimento que podem estar afetados.

2.      Caminho para o Futuro: O achado pavimenta o caminho para o desenvolvimento de terapias mais direcionadas e personalizadas. Ao entender o papel do KDM5B e de outros genes de risco, os cientistas podem, no futuro, desenvolver intervenções que atuem diretamente nos mecanismos biológicos comuns às duas condições.

 

Conclusão

A identicação do gene KDM5B como um gene de risco para o TDAH, e sua conhecida ligação com o TEA, é um marco na neurociência. Ela não apenas enriquece nossa compreensão da complexa arquitetura genética dessas condições, mas também oferece uma explicação cientíca para a alta taxa de comorbidade.

Embora a jornada da descoberta genética até o tratamento prático seja longa, cada passo como este traz esperança de que, no futuro, teremos ferramentas diagnósticas mais precisas e intervenções terapêuticas mais ecazes para melhorar a qualidade de vida de pessoas neurodivergentes. A ciência avança, traduzindo o labirinto genético em caminhos mais claros de compreensão e apoio.

 

Referências

[1]   Olfson, E. et al. (2024). Rare de novo damaging DNA variants are enriched in attention-decit/hyperactivity disorder and implicate risk genes. Nature Communications. [URL: https://www.nature.com/articles/s41467-024-50247-7]

[2]   Folha de S. Paulo. (2024, 31 de julho). Pesquisadores identicam genes associados ao TDAH. Equilíbrio. [URL: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrio/2024/07/pesquisadores- identicam-genes-associados-ao-tdah.shtml]

[3]   Sabetfakhri, N. P. et al. (2025). de novo KDM5B Mutation in a Patient with Autism Spectrum Disorder and Intellectual Disability. PMC. [URL:


https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12244219/]

[4]   Afya. (2024, 22 de maio). IACAPAP 2024: Atualidades na abordagem do TEA em pediatria. Portal Afya. [URL: https://portal.afya.com.br/pediatria/iacapap-2024- atualidades-na-abordagem-do-tea-em-pediatria]

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