Introdução
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro
Autista (TEA) são condições neurodesenvolvimentais que afetam a forma como o
cérebro processa informações e interage com o mundo. Embora muitas vezes
diagnosticados na infância, um número crescente de adultos tem recebido esses
diagnósticos tardiamente. Este artigo explora
a experiência de um diagnóstico de TDAH na idade adulta, com base em um relato pessoal, e discute as implicações e desafios
associados a essa jornada.
A Descoberta Tardia do TDAH
Para
muitos adultos, a descoberta de um diagnóstico de TDAH ou TEA na idade adulta pode ser um momento de revelação e, ao
mesmo tempo, de reflexão sobre o passado. A comediante
Shaparak Khorsandi, em seu artigo para o The Guardian [1], descreve essa experiência como a de Tarzan descobrindo
que era humano e não um chimpanzé. Essa analogia ilustra
a sensação de sempre ter se sentido
diferente, sem compreender a razão por trás de certas
dificuldades e comportamentos. Khorsandi relata que, por anos, ela se perguntou por que não
conseguia se encaixar nas expectativas sociais e profissionais, sentindo-se constantemente "atrasada" em comparação com seus pares.
Impactos do TDAH na Vida Adulta
O TDAH na vida adulta
manifesta-se de diversas
formas, afetando funções
executivas, regulação emocional e controle de impulsos. Khorsandi
detalha como seu TDAH impactou sua capacidade de regular emoções, resultando em
"birras" mais frequentes do que as de seus próprios filhos.
A deficiência nos gânglios da base, uma área do cérebro, leva a "curtos-circuitos" cerebrais, resultando em falta
de atenção para tarefas
que não a cativam e impulsividade em decisões cotidianas, como pintar o teto de
rosa choque sem ponderar as consequências [1].
TDAH e Criatividade: Um Mito ou Realidade?
Existe uma percepção comum de que o TDAH está intrinsecamente ligado à criatividade. No entanto, Khorsandi questiona
essa ligação, argumentando que, para ela, o TDAH mais a impediu do que a impulsionou
criativamente. Embora uma grande porcentagem de pessoas nas artes criativas tenha TDAH, uma porcentagem igualmente grande está na prisão, o que levanta
a questão se a criatividade é uma característica inerente ao TDAH ou uma ferramenta de sobrevivência.
Um estudo de Holly White e Priti Shah da Universidade de Michigan sugere
que a "diferença nas inibições" em pessoas com TDAH
pode explicar a alta taxa de criativos neurodivergentes. Essa característica pode levar a comportamentos de risco, que aumentam
os níveis de dopamina, mas também pode se manifestar em atos impulsivos ou, no
caso de Khorsandi, em grafitar paredes como forma de aliviar a sobrecarga
sensorial [1].
Disforia Sensível à Rejeição e o Caminho para a Compreensão
Um aspecto menos
conhecido, mas significativo, do TDAH é a disforia
sensível à rejeição (DSR). Khorsandi descreve a DSR como uma reação
intensa e dolorosa
à percepção de rejeição, mesmo em situações triviais. Essa sensibilidade exacerbada pode levar a meses de ruminação e convicção de que alguém
deseja seu mal, mesmo que a situação
não justifique tal interpretação. A compreensão da DSR foi um ponto de
virada para Khorsandi, ajudando-a a entender melhor seu próprio cérebro
divergente e a navegar pelas complexidades de suas interações sociais e
profissionais [1].
Conclusão
O diagnóstico tardio
de TDAH, como o de Shaparak Khorsandi, oferece uma nova lente
para interpretar experiências passadas e compreender desafios persistentes. Embora a
neurodiversidade possa trazer perspectivas únicas e abordagens inovadoras, é
crucial reconhecer as dificuldades que ela pode apresentar em um mundo
estruturado para a neurotipicidade. A busca
por profissionais que compreendam profundamente o TDAH e suas
nuances, como a DSR, é fundamental para que indivíduos neurodivergentes possam desenvolver estratégias de enfrentamento eficazes
e prosperar em suas vidas pessoais e profissionais. A "criatividade" que emerge de suas experiências muitas vezes é um
testemunho de sua resiliência e capacidade de adaptação em um ambiente que nem
sempre os apoia ou compreende plenamente.
Referências
[1] Khorsandi, S. (2025, July 4). Has it made me creative, or held me
back? Shaparak Khorsandi on being diagnosed with ADHD in her 40s. The Guardian. https:// www.theguardian.com/lifeandstyle/2025/jul/04/after-an-adhd-and-autism-diagnosis-i- now-find-the-world-more-confusing-how-do-i-make-sense-of-this
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