20.9.25

TDAH e Autismo: Uma Perspectiva Pessoal sobre o Diagnóstico Tardio


Introdução

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) são condições neurodesenvolvimentais que afetam a forma como o cérebro processa informações e interage com o mundo. Embora muitas vezes diagnosticados na infância, um número crescente de adultos tem recebido esses diagnósticos tardiamente. Este artigo explora a experiência de um diagnóstico de TDAH na idade adulta, com base em um relato pessoal, e discute as implicações e desafios associados a essa jornada.

 

A Descoberta Tardia do TDAH

Para muitos adultos, a descoberta de um diagnóstico de TDAH ou TEA na idade adulta pode ser um momento de revelação e, ao mesmo tempo, de reflexão sobre o passado. A comediante Shaparak Khorsandi, em seu artigo para o The Guardian [1], descreve essa experiência como a de Tarzan descobrindo que era humano e não um chimpanzé. Essa analogia ilustra a sensação de sempre ter se sentido diferente, sem compreender a razão por trás de certas dificuldades e comportamentos. Khorsandi relata que, por anos, ela se perguntou por que não conseguia se encaixar nas expectativas sociais e profissionais, sentindo-se constantemente "atrasada" em comparação com seus pares.

 

Impactos do TDAH na Vida Adulta

O TDAH na vida adulta manifesta-se de diversas formas, afetando funções executivas, regulação emocional e controle de impulsos. Khorsandi detalha como seu TDAH impactou sua capacidade de regular emoções, resultando em "birras" mais frequentes do que as de seus próprios filhos. A deficiência nos gânglios da base, uma área do cérebro, leva a "curtos-circuitos" cerebrais, resultando em falta de atenção para tarefas que não a cativam e impulsividade em decisões cotidianas, como pintar o teto de rosa choque sem ponderar as consequências [1].


TDAH e Criatividade: Um Mito ou Realidade?

Existe uma percepção comum de que o TDAH está intrinsecamente ligado à criatividade. No entanto, Khorsandi questiona essa ligação, argumentando que, para ela, o TDAH mais a impediu do que a impulsionou criativamente. Embora uma grande porcentagem de pessoas nas artes criativas tenha TDAH, uma porcentagem igualmente grande está na prisão, o que levanta a questão se a criatividade é uma característica inerente ao TDAH ou uma ferramenta de sobrevivência. Um estudo de Holly White e Priti Shah da Universidade de Michigan sugere que a "diferença nas inibições" em pessoas com TDAH pode explicar a alta taxa de criativos neurodivergentes. Essa característica pode levar a comportamentos de risco, que aumentam os níveis de dopamina, mas também pode se manifestar em atos impulsivos ou, no caso de Khorsandi, em grafitar paredes como forma de aliviar a sobrecarga sensorial [1].

 

Disforia Sensível à Rejeição e o Caminho para a Compreensão

Um aspecto menos conhecido, mas significativo, do TDAH é a disforia sensível à rejeição (DSR). Khorsandi descreve a DSR como uma reação intensa e dolorosa à percepção de rejeição, mesmo em situações triviais. Essa sensibilidade exacerbada pode levar a meses de ruminação e convicção de que alguém deseja seu mal, mesmo que a situação não justifique tal interpretação. A compreensão da DSR foi um ponto de virada para Khorsandi, ajudando-a a entender melhor seu próprio cérebro divergente e a navegar pelas complexidades de suas interações sociais e profissionais [1].

 

Conclusão

O diagnóstico tardio de TDAH, como o de Shaparak Khorsandi, oferece uma nova lente para interpretar experiências passadas e compreender desafios persistentes. Embora a neurodiversidade possa trazer perspectivas únicas e abordagens inovadoras, é crucial reconhecer as dificuldades que ela pode apresentar em um mundo estruturado para a neurotipicidade. A busca por profissionais que compreendam profundamente o TDAH e suas nuances, como a DSR, é fundamental para que indivíduos neurodivergentes possam desenvolver estratégias de enfrentamento eficazes e prosperar em suas vidas pessoais e profissionais. A "criatividade" que emerge de suas experiências muitas vezes é um testemunho de sua resiliência e capacidade de adaptação em um ambiente que nem sempre os apoia ou compreende plenamente.


Referências

[1] Khorsandi, S. (2025, July 4). Has it made me creative, or held me back? Shaparak Khorsandi on being diagnosed with ADHD in her 40s. The Guardian. https:// www.theguardian.com/lifeandstyle/2025/jul/04/after-an-adhd-and-autism-diagnosis-i-    now-find-the-world-more-confusing-how-do-i-make-sense-of-this

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