15.9.25

TDAH, Dores Crônicas e Enxaquecas: Desvendando as Conexões Genéticas


Introdução

O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) é uma condição neuropsiquiátrica que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, caracterizada por desatenção, hiperatividade e impulsividade. Além dos sintomas primários, pacientes com TDAH frequentemente apresentam comorbidades, incluindo dores crônicas e enxaquecas. Recentemente, estudos têm investigado a base biológica por trás dessas associações, revelando surpreendentes ligações genéticas. Este artigo explora as descobertas mais recentes sobre a sobreposição genética entre TDAH, dores crônicas e enxaquecas, e suas implicações para a prática clínica.

 

A Ligação Inesperada: TDAH e Condições Dolorosas

É um fato conhecido que enxaquecas e dores crônicas são mais prevalentes em indivíduos com TDAH do que na população geral. Essa observação tem instigado a comunidade médica e científica a buscar explicações para essa coexistência. Um estudo recente, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Universidade Federal de São Paulo (UNIFIFESP), utilizou técnicas de varredura no genoma humano para investigar a relação biológica entre essas condições [3].

Os resultados dessa pesquisa foram notáveis: aproximadamente 87% das variantes genéticas associadas às dores crônicas são compartilhadas com o TDAH. Embora a sobreposição com enxaquecas tenha sido menor, cerca de 50%, ainda é um número significativo. Esses achados sugerem que a variabilidade em nosso DNA que modula o TDAH também influencia a predisposição a dores crônicas e enxaquecas. Esse fenômeno é conhecido como pleiotropia, onde uma única variante genética pode afetar múltiplas características ou doenças simultaneamente [3].

 

Genes, Neurodesenvolvimento e Implicações Clínicas

O estudo identificou 12 regiões no DNA que contribuem substancialmente para a correlação entre TDAH e dores crônicas, e uma região para a correlação entre TDAH e enxaquecas. A análise dessas regiões revelou a presença de genes envolvidos em


processos de formação e desenvolvimento cerebral. Para o TDAH, que é classicamente entendido como um transtorno do neurodesenvolvimento, esses resultados eram esperados. No entanto, para as dores crônicas, que são mais tipicamente associadas a processos inflamatórios, traumas e estilo de vida, essa descoberta sugere uma nova perspectiva: parte de sua origem pode estar no desenvolvimento do sistema nervoso [3].

Essa compreensão mais aprofundada das raízes biológicas comuns entre TDAH e condições dolorosas pode ter grande relevância para a clínica médica. Ao reconhecer essas comorbidades, os profissionais de saúde podem oferecer uma visão mais abrangente e integrada no diagnóstico e tratamento dos pacientes [3].

 

Risco Genético e Neuroimagem

Para aprofundar a investigação, os pesquisadores calcularam o escore de risco poligênico (PRS) para enxaquecas e dores crônicas em uma amostra de 1660 indivíduos brasileiros com e sem TDAH. O PRS é uma medida que resume o grau de risco genético de uma pessoa para uma determinada característica ou doença, ponderando o efeito de todas as variantes genéticas. Os resultados mostraram que o risco genético para dores crônicas estava associado à gravidade do TDAH, ou seja, a uma maior impulsividade e hiperatividade [3].

Além disso, dados de neuroimagem revelaram que, quanto maior o risco genético para dores crônicas, mais o cérebro dos indivíduos se assemelhava a um “cérebro de TDAH”. Para investigar a causalidade, foi utilizada uma técnica chamada randomização mendeliana, que indicou que a influência de variantes genéticas associadas ao TDAH pode ser causal para dores crônicas e vice-versa. Embora o mesmo não tenha sido verificado para enxaquecas, esses achados reforçam a importância de considerar essas condições em conjunto na prática clínica [3].

 

Conclusão

As descobertas sobre a ligação genética entre TDAH, dores crônicas e enxaquecas abrem novas perspectivas para a compreensão e o manejo dessas condições. A identificação de variantes genéticas comuns e o reconhecimento da pleiotropia oferecem uma base biológica para as comorbidades observadas. Essa abordagem integrada pode levar a diagnósticos mais precisos e a estratégias de tratamento mais eficazes, melhorando a qualidade de vida dos pacientes. A pesquisa contínua nessa área é fundamental para desvendar completamente as complexas interações genéticas e neurobiológicas que moldam a saúde e o bem-estar.


Referências

[3] R7 Notícias. Cientistas investigam a ligação genética entre dores crônicas, enxaquecas e TDAH. Disponível em: https://noticias.r7.com/prisma/ciencia-para-o-dia- a-dia/cientistas-investigam-a-ligacao-genetica-entre-dores-cronicas-enxaquecas-e-o-   tdah-31072025/

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