O Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o
Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) são condições do
neurodesenvolvimento que, embora distintas, frequentemente se manifestam com
sintomas sobrepostos, tornando o diagnóstico e a intervenção um desafio
complexo, mas crucial. A correta compreensão dessas condições, baseada em
evidências científicas atualizadas, é fundamental para garantir o suporte
adequado e promover a qualidade de vida de indivíduos e suas famílias.
Recentemente, novas diretrizes e estudos têm lançado luz sobre o diagnóstico, o
tratamento e as particularidades dessas condições no contexto brasileiro 1 2 3 .
O Diagnóstico: Essencialmente Clínico e Multidisciplinar
As
diretrizes mais recentes da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI)
reforçam que o diagnóstico do TEA é essencialmente clínico, dependendo da
observação atenta, da entrevista detalhada com os pais ou cuidadores e da
aplicação dos critérios estabelecidos pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais (DSM-5) 1 .
É
vital que o profissional de saúde considere o histórico completo do
desenvolvimento neuropsicomotor da criança, bem como fatores ambientais. Por
exemplo, a exposição excessiva a telas ou situações de vulnerabilidade social
podem, em alguns casos, mimetizar sintomas do TEA, exigindo uma análise
cuidadosa para evitar diagnósticos equivocados. O uso de escalas de rastreio
validadas para o português brasileiro, como o M-Chat, CARS-2, ADI-R e ADOS-2,
servem como um suporte valioso, mas nunca devem ser a única base para a conclusão
diagnóstica 1 .
Um
ponto importante é a determinação do nível de suporte (Nível 1 a 3, conforme o
DSM-5). As diretrizes alertam que essa classificação não deve ser feita para
crianças muito pequenas ou recém-diagnosticadas, e deve ser vista como algo que
pode variar ao longo do tempo, à medida que o indivíduo se desenvolve e recebe
intervenções 1 .
Diferenças e Semelhanças entre TEA e TDAH
A
coexistência de TEA e TDAH é comum, mas é imprescindível diferenciar as causas
subjacentes dos sintomas para um tratamento eficaz. O artigo da Artmed destaca
que a principal distinção reside na natureza dos déficits .
A
sobreposição sintomatológica é o grande desafio. Por exemplo, ambos podem ter dificuldades
na comunicação social, mas por razões distintas: no TEA, está ligado à dificuldade
de compreender a mente do outro; no TDAH, à desatenção e à perda de conteúdo
durante a conversa 3 . A presença ou ausência de comportamentos
restritivos e repetitivos e interesses atípicos é o critério diferencial mais
relevante entre os dois transtornos 3 .
Intervenções e o Papel da Ciência
O
tratamento do TEA deve ser transdisciplinar e altamente individualizado. As
abordagens com maior evidência de eficácia são aquelas baseadas na ciência da
Análise do Comportamento Aplicada (ABA), frequentemente associada a outras
terapias como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e o treino de
habilidades sociais 1 . É crucial que a carga horária terapêutica
seja flexível e ajustada pela equipe, e não imposta rigidamente, e que o
treinamento de pais e cuidadores seja parte fundamental do processo 1 .
É
importante ressaltar que não existe tratamento farmacológico para os sintomas
centrais do TEA. Os medicamentos são empregados para tratar comorbidades, como
agressividade, TDAH associado e distúrbios do sono 1 .
A Importância da Abordagem Motora
Estudos
recentes da Universidade de São Paulo (USP) destacam que as anormalidades
neurais presentes no TEA e no TDAH também podem afetar a aprendizagem
motora 2 .
Isso
sublinha a necessidade de intervenções que considerem o aspecto motor, como a
manipulação da prática em aulas de Educação Física, e a importância da qualificação
de profissionais para identificar e atuar nesses indicativos de transtornos 2 .
Conclusão e Perspectivas
A
ciência avança continuamente, trazendo mais clareza sobre o TEA e o TDAH. O
diagnóstico precoce e preciso, aliado a intervenções baseadas em evidências
como o ABA e a consideração de aspectos como a aprendizagem motora, são os
pilares para um desenvolvimento integral. A abordagem deve ser sempre
multidisciplinar, empática e focada nas necessidades e potencialidades únicas
de cada indivíduo.
Referências
[1] Saúde Abril. Nova diretriz para
tratamento e diagnóstico de autismo: confira o que mudou. Disponível em:
[2] Jornal da USP. TDAH/autismo: estudos
investigam comportamento e aprendizagem motora de pacientes. Disponível em:
[3] Artmed. TDAH e autismo: diferenças,
semelhanças e desafios no diagnóstico. Disponível em:
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