Introdução
A relação entre
o Transtorno do Espectro Autista
(TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção
e Hiperatividade (TDAH) é um dos temas mais relevantes e complexos na
neuropsiquiatria infantil. Por muito tempo, a comunidade clínica acreditou que
esses dois diagnósticos não poderiam coexistir. No entanto, desde a publicação da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) em 2013, a
comorbidade — a
ocorrência simultânea de ambos os transtornos — foi oficialmente reconhecida .
Uma pesquisa longitudinal recente, publicada no prestigiado periódico European Child & Adolescent Psychiatry, lança luz sobre essa intersecção, revelando que o
diagnóstico
precoce de autismo é um forte preditor para o desenvolvimento posterior do TDAH . Compreender essa conexão é crucial para aprimorar as
estratégias de diagnóstico e
intervenção, garantindo que crianças e adolescentes
recebam o suporte mais adequado para prosperar.
O Estudo Longitudinal: Risco Elevado e Tipos de Apresentação
O estudo, um acompanhamento do CHARGE Study
(ReCHARGE), analisou
uma coorte de 645 participantes com idades entre 8 e 20 anos, que foram inicialmente avaliados
na primeira infância (entre 2 e 5 anos) 2 . O objetivo principal foi determinar a prevalência e os tipos
de apresentação do TDAH (Desatento, Hiperativo/Impulsivo ou Combinado) em jovens com diferentes históricos de desenvolvimento, incluindo TEA.
Os resultados são inegáveis: 33% dos
participantes preencheram os
critérios para o diagnóstico de TDAH. Mais significativamente, o
diagnóstico de autismo na primeira
infância demonstrou ser o preditor mais forte para o TDAH subsequente .
A tabela a seguir resume o Risco Relativo (RR) de desenvolver TDAH em comparação com o grupo
de Desenvolvimento Típico
(TD), destacando a vulnerabilidade particular de indivíduos com TEA:
|
|
Risco Relativo (RR) para TDAH Combinado/Hiperativo |
Ris |
|
Transtorno do Espectro Autista (TEA) |
5.4 vezes maior |
2. |
|
Atraso no Desenvolvimento (DD) |
4.4 vezes maior |
1. |
|
Outras Preocupações Iniciais (OEC) |
3.1 vezes maior |
2. |
Fonte: Adaptado de Ren et al., 2025 .
O dado mais alarmante é o risco
5.4 vezes maior de desenvolver o tipo
Hiperativo/Impulsivo ou Combinado do TDAH em crianças com diagnóstico precoce de autismo. Isso sublinha a necessidade de
uma vigilância clínica redobrada para os sintomas de TDAH nessa população.
Implicações Práticas para o
Diagnóstico e Intervenção
A identificação precisa
da comorbidade TEA e TDAH é mais do que uma questão
estatística; é uma necessidade clínica
com profundas implicações para o tratamento.
O Risco da Intervenção Inadequada
A psiquiatra infantil e adolescente Elicia Fernandez, envolvida na divulgação do estudo,
alerta para o risco de diagnósticos imprecisos . Sintomas como irritabilidade e
comportamentos desafiadores, comuns em jovens com autismo, podem levar à prescrição
de medicamentos antipsicóticos. No entanto, se a causa subjacente desses comportamentos for, na verdade, o TDAH, o antipsicótico não será o tratamento de primeira linha e pode expor a criança a efeitos colaterais sérios, como a síndrome
metabólica .
A intervenção correta para o TDAH, que pode incluir
estimulantes e terapias comportamentais
específicas, é
fundamental.
O Benefício da Atenção
Fortalecida
A pesquisadora sênior do estudo, Julie Schweitzer, enfatiza que o
tratamento eficaz do TDAH pode potencializar as terapias para o autismo 1 . A desatenção e a impulsividade podem interferir diretamente na capacidade da criança de aprender e se engajar
em intervenções para habilidades sociais, comunicação e linguagem.
"Se pudermos fortalecer a atenção [da criança], então as estratégias
que usamos para ajudá-las com habilidades sociais, compreensão de situações
sociais e desenvolvimento
![]()
da linguagem podem ser muito mais
eficazes" .
O TDAH não tratado aumenta o risco de acidentes, abuso de substâncias,
problemas sociais, e desafios acadêmicos e ocupacionais a longo prazo 1 . Portanto, a avaliação contínua e a intervenção precoce são essenciais para
melhorar a qualidade de vida desses indivíduos.
Conclusão: Um Chamado à Avaliação Contínua
Este estudo reforça a mensagem de que o diagnóstico de TEA na primeira infância
deve ser um sinal de alerta para a alta probabilidade de TDAH subsequente. Para pais, educadores e profissionais da saúde, isso significa:
1. Avaliação Abrangente: Não se contentar com um único diagnóstico. A avaliação deve ser contínua
e buscar ativamente os sintomas de TDAH em crianças e adolescentes com TEA.
2. Tratamento Personalizado: O plano de intervenção deve ser individualizado,
abordando tanto os desafios centrais do autismo quanto os
sintomas de desatenção e hiperatividade/impulsividade
do TDAH.
3. Foco na Qualidade de Vida: Ao tratar o TDAH, não apenas se melhora a atenção e o comportamento, mas
se pavimenta o caminho para que outras terapias do TEA sejam mais bem-sucedidas, resultando em uma melhor qualidade de vida e melhores
resultados a longo prazo.
A ciência continua a desvendar as complexas
interações do neurodesenvolvimento. Ao traduzir esses insights com clareza e empatia, podemos garantir
que o conhecimento se transforme em cuidado efetivo
para aqueles que mais precisam.
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Referências
[1] UC Davis Health. Autism, ADHD or both? Research offers new insights for clinicians.
Disponível em: [https://health.ucdavis.edu/news/headlines/autism-adhd-or-both-research- offers-new-insights-for-clinicians/2025/08]
(https://health.ucdavis.edu/news/headlines/autism-adhd-or-both-research-offers-new- insights-for-clinicians/2025/08 ). Acesso em: 5 de novembro de 2025.
[2] Ren, Y., Mlodnicka, A., Calub, C. A., Hertz-Picciotto, I., & Schweitzer, J. B. (2025). Predicting later ADHD presentation types from early
childhood autism and intellectual
disability. European Child & Adolescent Psychiatry. Disponível em:
[https://link.springer.com/article/10.1007/s00787-025-02805-7] (https://link.springer.com/article/10.1007/s00787-025-02805-7
). Acesso em: 5 de novembro de 2025.

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