13.9.25

Novo Teste de Rastreamento Ocular para Autismo: Uma Promessa para o Diagnóstico Precoce


Introdução

O diagnóstico precoce do Transtorno do Espectro Autista (TEA) é crucial para o desenvolvimento e a qualidade de vida de indivíduos com a condição. Novas tecnologias estão surgindo para auxiliar nesse processo, e uma delas é um inovador teste de rastreamento ocular para bebês, recentemente aprovado nos Estados Unidos. Este artigo explora os detalhes dessa nova abordagem, suas implicações e as ressalvas da comunidade científica.

 

O Teste EarliPoint

Um novo método de rastreamento ocular para o diagnóstico precoce do autismo em bebês, com idades entre 14 e 30 meses, foi aprovado nos Estados Unidos em agosto de 2023. Este teste, conhecido como EarliPoint, tem o potencial de revolucionar a forma como o TEA é identificado. O procedimento envolve o monitoramento dos olhos das crianças 120 vezes por segundo enquanto elas assistem a vídeos de outras crianças interagindo. Os resultados podem ser obtidos em apenas 15 minutos [1].

O estudo por trás dessa tecnologia é liderado pelo brasileiro Ami Klin, diretor do principal centro de tratamento de autismo dos EUA, localizado em Atlanta. Atualmente, o exame é aplicado em crianças de 1 ano e 4 meses a 2 anos e meio, com previsão de aprovação para crianças de até 8 anos no primeiro semestre de 2026. No entanto, ainda não há previsão para que essa tecnologia chegue ao Brasil, e seu uso dependerá da aprovação dos órgãos regulatórios nacionais [1].

 

Comparação com o Diagnóstico Tradicional

O processo diagnóstico tradicional do autismo é complexo e demorado, levando de 6 a 10 horas e exigindo a atuação de uma equipe multidisciplinar, incluindo pediatras, psicólogos e neurologistas. Além disso, as listas de espera para um diagnóstico podem variar de 1 a 2 anos. O teste EarliPoint, ao oferecer resultados em apenas 15 minutos, visa otimizar o tempo dos profissionais de saúde, permitindo que se dediquem mais à


interação com os pais e ao planejamento do tratamento, em vez de gastar horas na aplicação de testes [1].

É importante ressaltar que, como qualquer ferramenta médica regulamentada, a ideia não é que o método EarliPoint substitua o exame clínico completo. O diagnóstico de autismo ainda exige uma avaliação abrangente do histórico médico e de desenvolvimento da criança, além de observações diretas [1].

 

Ressalvas e Perspectivas da Comunidade Científica

Apesar do potencial promissor do teste EarliPoint, a comunidade médica expressa algumas ressalvas e a necessidade de validação contínua. No Brasil, o diagnóstico de autismo geralmente é feito a partir dos 18 meses, com maior validade após os três anos de idade. Profissionais bem treinados podem diagnosticar a partir dos 14 meses em casos clássicos, mas para situações menos evidentes ou profissionais menos experientes, 18 meses ainda é um limite inferior seguro [1].

O psiquiatra de crianças e adolescentes e professor de psiquiatria da USP, Guilherme Polanczyk, destaca que a comunidade médica defende a necessidade de outros biomarcadores para o diagnóstico do autismo. Ele sugere que a avaliação do risco genético individual pode ter mais potencial do que o contato ocular como biomarcador. Além disso, tecnologias de inteligência artificial, capazes de processar grandes volumes de dados, certamente contribuirão para um diagnóstico mais preciso [1].

Polanczyk também enfatiza que a falta de contato ocular, embora frequente em crianças com autismo, não é um marcador exclusivo e pode estar presente em outras condições. O autismo é um transtorno heterogêneo, e nem todas as pessoas com autismo apresentam prejuízos no contato ocular. A validação do novo método em diferentes contextos e populações é fundamental para entender como ele funciona em casos de comorbidades, como autismo e TDAH, ou autismo e dificuldades sensoriais [1].

Existe uma preocupação significativa em garantir que a disseminação de ferramentas de diagnóstico seja acompanhada de treinamento adequado para profissionais e de intervenções apropriadas para as crianças com autismo. A falta desse suporte pode, inclusive, causar danos [1].

 

Conclusão

O teste de rastreamento ocular EarliPoint representa um avanço significativo no diagnóstico precoce do autismo, oferecendo uma ferramenta mais rápida e acessível. No entanto, é fundamental que sua implementação seja feita com cautela,


complementando o exame clínico tradicional e sendo validada em diversas populações. A colaboração entre novas tecnologias, pesquisa genética e o aprimoramento da capacitação profissional será essencial para garantir que o diagnóstico do TEA seja cada vez mais preciso e que as intervenções terapêuticas sejam eficazes, promovendo o bem- estar de indivíduos com autismo e suas famílias.

 

Referências

[1] G1. Teste identifica autismo com análise dos olhos em 15 minutos; entenda ressalvas da técnica em uso nos EUA. Disponível em: https://g1.globo.com/saude/bem-estar/ noticia/2025/08/20/teste-identifica-autismo-com-analise-dos-olhos-em-15-minutos- entenda-ressalvas-da-tecnica-em-uso-nos-eua.ghtml

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